Moçambique precisa de menos promessas e mais resultados
Por Anísio Pascoa
Publicado em 23/07/2026 22:20
ARTIGO DE OPINIÃO
"As crianças são flores que nunca murcham" - Samora Machel

Há muito que os moçambicanos convivem com um discurso repetitivo, marcado por promessas de desenvolvimento, crescimento económico e melhoria das condições de vida. Ano após ano, sucedem-se justificações para o atraso do país: a guerra dos 16 anos, as calamidades naturais, as manifestações violentas, o terrorismo em Cabo Delgado, as crises económicas globais e tantos outros factores que, embora reais, não podem servir de explicação permanente para a falta de resultados concretos.

É inegável que Moçambique enfrentou e continua a enfrentar enormes desafios. No entanto, nenhum país constrói o seu futuro vivendo exclusivamente das razões que explicam os seus fracassos. Os cidadãos esperam mais do que discursos bem elaborados; esperam soluções, políticas eficazes e mudanças visíveis no seu quotidiano. O verdadeiro patriotismo não se mede apenas pelas palavras, mas pela capacidade de transformar os recursos existentes em oportunidades de desenvolvimento.

O debate sobre a presença de estrangeiros na economia moçambicana tem ganho força nos últimos tempos. Porém, a questão central não deve ser a nacionalidade de quem investe ou trabalha no país. O verdadeiro problema é a incapacidade de Moçambique produzir, em quantidade e qualidade suficientes, bens essenciais como tomate, batata, cebola, arroz ou trigo, obrigando o país a recorrer constantemente às importações. É igualmente preocupante a dependência da ajuda externa para financiar sectores fundamentais e, muitas vezes, até para manter infra-estruturas públicas. Esta realidade demonstra que ainda não conseguimos consolidar uma economia suficientemente produtiva e resiliente.

Moçambique é um país rico em recursos naturais, possui extensas terras aráveis, uma população maioritariamente jovem e uma localização estratégica na região da África Austral. Contudo, essas potencialidades continuam, em muitos casos, por transformar-se em riqueza efectiva para a população. Enquanto a aposta na industrialização, na agricultura moderna, na formação profissional, na ciência e na inovação continuar aquém do necessário, o país permanecerá vulnerável às crises externas e excessivamente dependente da solidariedade internacional.

As histórias do jovem que mentia constantemente (conto popular chinês) e do caçador que simulava ataques de leão (conto africano) ilustram uma realidade que também pode ser observada na vida pública. Quando promessas são repetidas durante anos sem que se traduzam em resultados concretos, instala-se um sentimento de descrença. A confiança é um património difícil de construir e extremamente fácil de perder. Quando os cidadãos deixam de acreditar nos discursos das instituições e dos seus dirigentes, enfraquecem-se igualmente os laços de confiança indispensáveis ao desenvolvimento de qualquer nação.

Recuperar essa confiança exige transparência, responsabilidade e, sobretudo, resultados. Não basta anunciar projectos; é necessário executá-los. Não basta identificar problemas; é preciso resolvê-los. A população já não procura discursos optimistas, mas sim escolas com qualidade, hospitais funcionais, estradas transitáveis, energia, água, emprego e oportunidades iguais para os jovens.

Moçambique tem todas as condições para reduzir a sua dependência externa e construir uma economia mais forte e inclusiva. Para isso, será necessário substituir a cultura da promessa pela cultura da execução, do planeamento e da prestação de contas. O futuro do país dependerá menos das boas intenções proclamadas ao longos destes anos todos de independência e muito mais da capacidade colectiva de transformar palavras em acções concretas. Só assim será possível restaurar a confiança dos cidadãos e construir um país verdadeiramente sustentável e capaz de garantir melhores condições de vida para todos. É, pois, de facto, necessário “Fazer diferente para obter resultados diferentes!”

Com a melhor das intenções!

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