Ao contrário do que tenho feito neste espaço, desta vez quero prestar uma homenagem. Não a uma vitória, não a um título, nem sequer a uma grande campanha desportiva. Quero homenagear um homem que, até há bem pouco tempo, comandava tecnicamente a Liga Desportiva de Sofala: Ivo Gonçalves.
A sua saída do clube, logo após a derrota diante do Ferroviário de Maputo, chamou-me particularmente a atenção. O treinador demitiu-se, alegadamente, por razões que só ele e Deus saberão. Mas, mais importante do que as razões que o levaram a tomar essa decisão, foi a forma como decidiu fazê-lo.
Num tempo em que, entre nós, parece existir uma necessidade quase permanente de expor publicamente os problemas internos, Ivo Gonçalves optou pelo silêncio. Não transformou a sua saída num espectáculo, não apontou dedos, não procurou culpados nem aproveitou a ocasião para lavar roupa suja em praça pública. Limitou-se a dizer: “Há situações que pertencem à vida interna do clube e não precisam de ser discutidas publicamente.”
Pode parecer uma frase simples. Não é.
Numa sociedade em que, muitas vezes, confundimos transparência com exposição e coragem com capacidade de atacar o outro, saber calar também pode ser uma demonstração de responsabilidade. Há assuntos que devem ser discutidos, sim, mas há outros que, por respeito às instituições, às pessoas e às relações construídas ao longo do tempo, devem permanecer dentro das portas onde nasceram.
Ivo Gonçalves assumiu a Liga Desportiva de Sofala num contexto particularmente exigente. Tratava-se de uma equipa que acabara de conquistar a promoção ao Moçambola e que tinha como principal objectivo assegurar a permanência na maior competição futebolística nacional.
Desde o início, o treinador pareceu compreender a realidade que tinha diante de si. Não o vimos reclamar sistematicamente do plantel, exigir jogadores de determinadas características ou transformar as limitações financeiras do clube numa justificação permanente para os resultados menos conseguidos.
Pelo contrário. Disse, no início da época, que trabalharia com os jogadores que tinha.
E trabalhou.
Nas primeiras seis jornadas, conseguiu resultados que, para muitos, estiveram acima das expectativas. Depois vieram as dificuldades previsíveis: jogos fora do seu reduto, limitações financeiras já assumidas publicamente pela direcção e a saída, durante a abertura do mercado, de algumas das melhores unidades da equipa para representar outras cores.
Seria fácil reclamar.
Seria fácil dizer que o treinador não tinha condições.
Seria fácil preparar o terreno para justificar antecipadamente eventuais maus resultados.
Mas Ivo Gonçalves não escolheu esse caminho. Continuou a afirmar que era com os jogadores disponíveis que iria lutar pelo objectivo definido: garantir a manutenção da Liga Desportiva de Sofala no Moçambola.
É precisamente aqui que a sua postura merece ser destacada.
Não porque tenha sido perfeito. Não porque os resultados tenham sido extraordinários. E muito menos porque a sua demissão resolva os problemas estruturais do futebol moçambicano. Merece destaque porque, num momento em que atravessamos uma evidente crise de valores, demonstrou que há momentos em que reconhecer os próprios limites e saber quando sair também é uma forma de responsabilidade.
E esta reflexão ultrapassa largamente as quatro linhas.
No nosso país, quantas vezes assistimos a dirigentes, gestores e responsáveis de instituições públicas ou privadas permanecerem agarrados aos cargos mesmo quando os resultados demonstram que já não existem condições para continuar?
Quantas vezes transformamos funções que deveriam ser exercidas temporariamente em propriedades pessoais?
É frequente ouvirmos, ainda que de forma implícita, a velha máxima: “Daqui não saio, daqui ninguém me tira.”
E, quando alguém questiona a permanência de determinada pessoa no cargo, surge outra expressão que, infelizmente, também se tornou demasiado familiar entre nós: “Chegou a minha vez!”
Mas gerir uma instituição não deveria ser uma questão de vez. Um cargo não é um prémio, muito menos uma herança. É uma responsabilidade.
Quem assume uma função de liderança deve compreender que o cargo não lhe pertence. Pertence à instituição e, em última instância, às pessoas que dela dependem. Por isso, quando as circunstâncias deixam de permitir que alguém cumpra adequadamente a missão que lhe foi confiada, sair pode ser tão digno quanto permanecer.
É claro que a demissão de Ivo Gonçalves não deve ser romantizada. As circunstâncias concretas que determinaram a sua saída continuam, pelo menos publicamente, por esclarecer. E talvez seja melhor assim. Nem todos os conflitos precisam de ser transformados em conteúdo para consumo público.
O que podemos analisar é a atitude.
E, nesse aspecto, há uma lição importante: nem sempre é preciso ficar até ao último minuto para provar compromisso. Às vezes, o verdadeiro compromisso está em reconhecer que chegou o momento de partir.
Num Moçambique que precisa urgentemente de recuperar a cultura da responsabilidade, da prestação de contas e do respeito pelas instituições, este tipo de comportamento merece ser valorizado.
Ivo Gonçalves não saiu aos gritos. Não expôs o balneário. Não culpou os jogadores. Não atacou a direcção. Não transformou a sua saída numa batalha pessoal.
Simplesmente colocou o lugar à disposição.
Talvez seja uma pequena história no universo do futebol moçambicano. Mas pequenas histórias também podem carregar grandes lições.
Parabéns, Ivo Gonçalves. Não apenas pelo trabalho realizado dentro das quatro linhas, mas, sobretudo, pela forma como escolheste sair.
Porque, num país onde tantos parecem querer permanecer nos cargos a qualquer preço, é importante recordar que saber quando ficar é uma virtude, mas saber quando sair também é.
Com a melhor das intenções!